1 de ago. de 2023

comentando "se deus me chamar não vou", de Mariana Salomão Carrara

considero difícil falar sobre livros que li há muito tempo, aqui nesse caso há mais de 6 meses. vou tentar não inventar memórias, mas talvez reconstruir lembranças já diga respeito aos equívocos em torno delas... afetividade e reconhecimento também farão parte. esse livro ficou comigo por quase uma semana e me deixou retalhos de vidas inteiras.

Maria Carmem é uma menina sincera, modesta e me cativou como quem não quer nada. se eu tivesse um compilado de personagens que me parecem muito familiar ela seria a primeira delas. 
Kari-gurashi no Arietti (2010)
Também fiquei querendo que livros fossem igual sanfona. Que tudo que eu escrevesse ficasse sanfonando na calçada pras pessoas ouvirem, em vez de lerem, já que ninguém sai lendo muito por aí. Daí as páginas abriam e fechavam no meu braço e as palavras iam saindo e se eu escrevesse muito muito muito bem igual o Leonardo toca, as pessoas acabariam dançando.

vejo que é unânime a vontade de colocar essa garota num potinho. não sendo ela a única, uma menina de 11 anos, a ter vontade de comer o mundo com as mãos e não como sugerem os adultos, com garfo e faca. eu também sinto essa vontade surgir, às vezes. como uma lembrança esquecida, enterrada. acho difícil compreender como um ser que viveu tão pouco consegue ter tanto a dizer sobre as coisas. 
Se você fosse uma casa, como você seria. Perguntava o questionário do Leo. Pequena. Bem pequena, com portas cor-de-rosa. Eu seria de madeira, uma madeira bem leve, e todo o mundo passaria perto e diria Nossa que casinha mais frágil. De vez em quando, passariam perto de mim pra ter certeza de que eu ainda estava ali, que o vento não tinha me derrubado, de tão pequena e frágil e cor-de-rosa. Eu teria um jardim e um balanço, e as outras casas muito grandes e brutas me invejariam. E quando tivesse uma festa de aniversário em mim, as crianças todas segurariam balões de gás pelas janelas, e eu ficaria toda colorida, e se tivesse crianças demais, com dois balões cada uma, bem devagarzinho, eu sairia voando. 

o olhar da autora me parece muito gentil. não tive a oportunidade de ler outras coisas da Mariana, mas a primeira impressão foi de muita sensibilidade em criar, escolher palavras e sentimentos. se nunca foi lei, acredito que todo personagem precisa ser de carne e osso, como os que ela dá vida aqui. 

Antes de ficar doente, ela era muito sozinha, daí algumas tardes minha mãe me enviava pra fazer companhia pra ela, mas na verdade eu fazia solidão. As duas ali no sofá, quase no escuro, competindo qual solidão conseguia alcançar o teto. Eu acho mesmo que as crianças podem ser mais sozinhas que as velhas.
crianças podem ser mais sensatas que os adultos, essa é uma pseudo certeza. elas sempre serão um mistério pra mim. 
De repente isso ficou muito pesado, justo eu, em banho-maria, sem saber verdade nenhuma, falando de bife com frango frito.
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✷ decidi que iria participar do beda nesse mês de agosto. um belo de um desafio de pura persistência e criatividade, que eu não precisava nesse momento, sinceramente, mas enquanto esse pico de adrenalina durar estarei por aqui. 


24 de jul. de 2023

cada vez mais confusa

Phoebe Bridgers, Punisher (2020)
qualquer tarefa simples tem me drenado energia como se fosse um furacão. energia essa que tem me custado muito pra guardar. energia emocional, sei lá. ás vezes, ou melhor, na maioria delas, considero difícil explicar esses negócios abstratos do coração. talvez devesse pôr o sentimento pra dormir, mas como embalar o coração?

repensar as coisas é quase involuntário e se eu pudesse nem me daria o trabalho. é cansativo. como lido, como ajo, como processo, como concluo. é uma grande montanha russa, sinceramente, parar e refletir sobre essas questões que me parecem tão naturais. no que toca a isso, não são tão naturais assim. embora nem sempre dê pra parar, só refletir e nem sempre realmente refletir, apenas pensar à respeito delas, ainda assim é difícil olhar de maneira questionadora pra si.

coisas que ninguém me pediu pra fazer, mas acabo fazendo mesmo assim, involuntariamente, como já disse. sinceramente é um trabalho desgastante, angustiante até. 

Love Exposure (2008)
ando com essa ideia de que preciso ser minha própria ouvinte, já que não há outra pessoa que o faça, ou que tenha essa obrigação de fazer. não é isso que a minha ex-psicoterapeuta espera? que eu tenha conseguido lidar com os problemas que a minha cabeça cria?

até onde eu mudei? até onde as coisas são consequências de ter vivido na pandemia? até quando vou continuar me surpreendendo com as minhas versões? 

Picnic (1996)
não necessariamente questões existenciais e tampouco de expectativa negativa, me faço perguntas como essas pra me provocar. sempre com medo de perder o calor pela vida, de me interessar pelas coisas, de não sentir vontade de me vulgarizar. 

sinto necessidade de sentir que a minha existência fez sentido naquele momento que fiz outra pessoa sorrir. aos poucos também aprendo a não me negligenciar, a não precisar de outras pessoas pra me fazer gente, afinal não sou extensão de ninguém. preciso das conexões, de estar inteira nelas.

cada vez mais confusa, ainda que um pouco mais segura de mim e deixando acontecer como a maioria dos meus processos: sem paciência, caótico, não linear. ✷

12 de jul. de 2023

vida de plástico, sonhos de vidro

nunca lembro dos detalhes de um sonho. seria compreensível que de pesadelos a minha memória guardasse o máximo e com cuidado, mas nem assim. há três noites seguidas que pesadelos invadem o meu sono. esse que já me é tão precário, tão leve. espero que de brincadeiras a minha mente se faça e que não sejam, nem antecipem maus presságios.