6 de mar. de 2022

selfies, Sylvia Plath e conexões forçadas

A autora Sylvia Plath sorrindo ao ar livre.
nem sempre tive problemas com minha própria imagem. pensar sobre isso se tornou recorrente há alguns anos, principalmente quando decido renovar fotos de perfis virtuais. seja uma imagem em reflexo de espelhos ou fotografias, vai muito além de achar desagradável esteticamente ou não, é sobre não conseguir me reconhecer. parecem seres completamente diferentes, de nomes e personalidades distintas. todas as vezes. olho para um retrato que fiz de mim mesma e observo espantada uma registrada por outro olhar que não o meu. quem é essa pessoa? 

talvez, e só talvez, o motivo pra que exista essa confusão mental, seja o fato de que não faço muitos registros do meu rosto ao longo do tempo. não estou em muitas fotos ao lado de outras pessoas. não é comum. mesmo quando surge a oportunidade, tenho a tendência ao "desaparecer instantaneamente". existiu uma época onde eu era mais tranquila em relação a fotos. apesar da paranoia já existir, em algum momento de 2016 pra cá, ela venceu. atualmente, não tenho fugido das fotos, mas me recuso a olhar. 

queria dizer: ah! então eu sou assim... e ter certeza. sei que o tempo faz seu trabalho, mas sempre ter uma imagem diferente, ou uma personalidade diferente, e perceber, me deixa maluca. fico ansiosa pra descobrir: quem é essa nicole de agora?

aprendi que este reflexo que vejo sou eu e acreditei. espelhos não mentem, até onde sei. fui além e achei que pudesse ver minha alma nele, mas o reflexo me encara, ou eu o encaro (talvez, as duas coisas). reflito sobre as cicatrizes e as feridas que continuam, se insinuam em mim. no espelho são invisíveis, no entanto. impossível que ela seja eu, penso. as dores de dentro não se pode refletir. e é engraçado que, no espelho eu acredito, nas fotos não.

quer dizer, dependendo de quem vê, da câmera, do ângulo, do espelho ou de qualquer outra superfície refletora de imagem, tenho centenas de milhares de cópias quase idênticas. claro, todas essas duplicatas são a mesma pessoa, sei disso. ao mesmo tempo não são. é possível que todas essas que me habitam estejam vivendo vidas diferentes da minha. tenham feito escolhas que eu descartei. talvez, o mundo seja uma grande Matrix de realidades paralelas, acontecendo nesse exato momento. 

e as nicoles em álbuns de fotografias? por que não consigo lembrar que também as fui? a gente aceita que o passado só se lembra aos flashes e tá tudo bem? é uma decisão correta, acredito. lúcida. parece que ando com uma parafuso a menos, mas realmente, tento evitar esses pensamentos, pois em sua maioria não levam a lugar nenhum.  

li esse trecho no Redoma de Vidro, da Sylvia Plath e me deu vontade de trazer aqui, pois tenho vivido essa odisseia desde que saí do colégio há uns bons (nossa) sete/oito anos atrás, nem tenho mais certeza. 

(...)Eu via minha vida se ramificando à minha frente como a figueira verde daquele conto. 

Da ponta de cada galho, como um enorme figo púrpura, um futuro maravilhoso acenava e cintilava. Um desses figos era um lar feliz com marido e filhos, outro era uma poeta famosa, outro, uma professora brilhante...,...e acima desses figos havia muitos outros que eu não conseguia enxergar. 

Me vi sentada embaixo da árvore, morrendo de fome, simplesmente porque não conseguia decidir com qual figo eu ficaria. Eu queria todos eles, mas escolher significava perder todo o resto, e enquanto eu ficava ali sentada, incapaz de tomar uma decisão, os figos começaram a encolher e ficar pretos e, um por um, desabaram no chão aos meus pés.

percebi que tenho mania de fazer conexões forçadas com as coisas. talvez, num desespero velado de encontrar sentido em tudo o que eu faço, quando na verdade, estou apenas sendo rasa (e idiota), principalmente na hora de escrever. tento ser gentil comigo e penso que foi (é) apenas uma das formas que encontrei pra lidar com a vida. não posso negar que fiquei decepcionada. como finalmente notar que a vida não é feita com caminhos de tijolos dourados. no entanto, me senti corajosa por ter admitido. 

um exemplo muito sincero, seria dizer que tentei com muito afinco relacionar o trecho do livro da Sylvia com os pensamentos não muito lúcidos sobre autoimagem. foram coincidências não muito coincidentes (e de novo, tentando), mas lá estava eu me despedaçando pra tornar real. 

preciso de férias de mim.

ainda não terminei a Redoma de Vidro, mas já deixou marcas por aqui.
(...) A última coisa que eu queria da vida era "segurança infinita” ou ser o “lugar de onde a flecha parte". Eu queria mudança e agitação, queria ser uma flecha avançando em todas as direções, como as luzes coloridas de um rojão de Quatro de Julho.

16 comentários:

Larissa Fonseca disse...

Você é poesia em quelquer ângulo, Nicole... Espelhos e fotografias são só um breve registro disso ♥

E eu amei essa postagem.

Um abraço enorme para você!

'lana disse...

Achei suas conexões super válidas. Me fez fazer minhas próprias conexões forçadas. Tokyo Ghoul, kung fu panda, a biblioteca da meia noite. Vê como o cérebro da gente funciona? Buscando padrões nas coisas que parecem não fazer nenhum sentido. Mas é a forma da gente se conectar e se relacionar com as coisas.
Gostei muito da reflexão, obrigada! Me fez querer ler a redoma de vidro, talvez eu coloque na fila de espera das minhas leituras.

jaquinho disse...

pôh, eu voltei a alguns anos a morar em uma casa onde eu passei parte da infância e da adolescência e as vezes eu me perco um tanto no tempo quando olho as coisas por aqui. Dia desses eu passei em frente ao espelho procurando um rosto adolescente, confuso com o quão baixas eram as coisas e com o rosto que me encarava. Sinto que tem um desencontro esquisito entre a ideia de identidade e a de ser um corpo com células que morrem e nascem de novo todos os dias. Eu ando pirando bastante na ideia de ser ou de estar sendo nos últimos tempos e terminei esses dias um livro que me ajudou um tanto a ficar um pouco - bem pouco - menos maluco com essas coisas, eu não sei se você lê em inglês, mas o livro chama "you and your profile: identity after authenticity" e ao longo da leitura ele foi me apresentando várias ferramentas interessantes pra pensar melhor sobre essa coisa de ser. Ainda não acho que eu saiba quem eu sou, mas tendo lido esse livro tenho conseguido pensar um pouco melhor sobre o assunto.

Eu ainda não lí a redoma de vidro, mas em algum momento alguém me mostrou essa exata citação e ela ressoou bastante comigo também, tomara que a gente ainda consiga comer um figo ou dois. Obrigado por compartilhar ^^

Camila Faria disse...

Acho que, se você sentiu uma conexão entre a sua reflexão e o texto da Sylvia, ela EXISTE sim. Pode parecer confuso ou desconexo para quem olha de fora, mas não acredito que seja algo forçado. A vida é cheia desses vínculos, só que alguns fazem mais nexo que outros. :)

Não Me Mande Flores

Jéssica Souza disse...

Amei seu texto, as vezes não me reconheço meu próprio eu. Hoje ainda estou em construção para tentar me acha nesse mundo.
bjs
https://deliriosdeumaliteraria.blogspot.com/?m=1




nicole e. martins disse...

que lindo, Larissa! me sinto muito honrada em ser mencionada dessa forma por você! <3 fico feliz que tenha gostado!!

um super abraço em ti <3

nicole e. martins disse...

oi Alana :) !!!! acho que podem ser válidas mesmo... ás vezes sou cruel comigo, mas há momentos em que reflito. gostei das suas conexões haha, são bem distintas. isso me faz pensar que é muito particular. achei super bonito isso que você disse. a forma da gente se conectar e se relacionar. fiz uma outra conexão agora haha (com o bojack horseman). fico feliz que tenha gostado <3 não precisa agradecer akjsakjs. se você for ler mesmo, fica o aviso de que trata de depressão e suicídio... se forem temas que não te deixam confortáveis, não recomendo, pois bem explícito.

um abraço em ti <3

nicole e. martins disse...

oi Jéssica! me identifiquei com seu comentário haha nem sei se isso é bom, mas se descobrir aos poucos talvez seja! muito obrigada <3 fico feliz que tenha gostado!!

obrigada por passar aqui :)) bj bj

nicole e. martins disse...

oi Camila!! <3 isso que você disse faz MUITO sentido. ás vezes eu esqueço que essa é a graça da coisa. a forma como a gente se conecta com elas! não fazer sentido é até legal se pensar por outro lado haha muito obrigada por deixar sua reflexão aqui <3

nicole e. martins disse...

fiquei muito feliz em ler teu relato jaquinho :)) é muito engraçado como a gente pode estar pensando e refletindo sobre coisas parecidas e além do mais lendo com objetivos parecidos!! sobre o que nos faça entender essa maluquice de ser e não ser no mundo. acho que a minha leitura em inglês com textos mais profundos assim não é tão boa, mas ainda não esqueci da tua outra recomendação do albert camus!!! que acho que também se encaixa aqui né? pensei em me aventurar no existencialismo de sartre (na ficção mesmo, na filosofia pura não me garanto) vai que rola alguma iluminação também...

que coisa boa saber disso!! essa citação é muito emblemática mesmo, gera tantos pensamentos, tantos!!!!
não precisa agradecer ajskas obrigada por vir aqui <3

Teresa Isabel Silva disse...

Uma boa publicação para nos fazer refletir!

Bjxxx
Ontem é só Memória | Facebook | Instagram | Youtube

nicole e. martins disse...

olá, olá! que legal saber disso :) muito obrigada.
bj bj

Tati disse...

tenho essa mesma dificuldade em me reconhecer. acho que na adolescência eu tinha mais facilidade para tirar selfies, e com o tempo isso foi se perdendo a ponto de eu não me importar nem com o reflexo do espelho mais, uma coisa meio "acordei e sai", sabe? no fundo sei que me prejudica (a autoestima que o diga), mas ainda não sei bem como mudar isso :/


Limonada


nicole e. martins disse...

poxa, entendo, nem eu! a gente só espera que em algum momento da vida haja esse reconhecimento de nós mesmas, né? sei lá kk é bem complexo mesmo :(

esther disse...

esses pensamentos sobre autoimagem são mais constantes do que a gente imagina. e acho bizarro perceber depois de muito tempo a nossa expressão em uma foto antiga, a gente se expressa muito o tempo todo e nem percebemos, né?

essa semana conversei sobre isso com uma amiga, pra ser mais específica, sobre aparência e sua mentira absurda. eu olho pra ela e a vejo bonita, nas fotos acho ela um pouco diferente da realidade mas ainda bonita. a câmera nos captura meio diferente e nao dá pra saber com precisão como eu sou, nem vc sabe como é, os espelhos mostram diferentes coisas. só conseguimos definir um "eu" pela nossa mente, que manifesta desejos, vontades etc. e ao mesmo tempo que a aparência é nada ela também revela muito sobre nós. é bem complicado isso mas estamos em constante desenvolvimento.

aliás, leio seu blog há um tempo mas é a primeira vez que comento aqui. tenho muita vontade de ler esse livro porque vi na sinopse que a personagem tem meu nome. quando finalizar minhas leituras atuais, vou ler :D

nicole e. martins disse...

oi, esther!!! :) acho que beleza é bem subjetivo, depende da perspectiva de quem tá olhando. existe sempre um intermediário quando não é o nosso próprio olho!! então o que a gente enxerga não é o mesmo que o outro enxerga e isso é muito maluco pra mim. acho esse assunto legal de conversar, mas me perco facilmente nele aksjaksj

sim, é verdade!! esther greenwood :) espero que tu goste, ele tem alguns temas sensíveis e tal, bem diretos, então se você tiver problema com isso e ainda assim quiser ler, faz quando tu tiver bem e tal...

que legal te ver aqui!! (‾◡◝) te stalkeio a uns tempos também askajsajs e vamos de finalmente sair do anonimato